Projecto europeu para alunos entre os
cinco e os 15 anos aposta no ensino da argumentação para uma melhor compreensão
do mundo e de pontos de vista diferentes e assim desenvolver a empatia para com
o outro. Em Portugal está garantida a participação de pelo menos 20 turmas.
Artigo de Clara
Viana que saíu no Jornal Publico a 23 de abril de 2019 com título Não há empatia nos currículos, mas estes 500 alunos
talvez aprendam a chegar lá
Não é um estado de alma,
nem tão pouco um sentimento. Será antes uma capacidade que alguns têm e outros
não, mas que todos poderão aprender de modo a conseguirem identificar-se com
outras pessoas e até colocarem-se no seu lugar.
A esta capacidade chama-se
empatia e é um dos pilares de um novo projecto europeu destinado a alunos entre
os cinco e os 15 anos, que visa promover nas salas de aula “o ensino do diálogo
e da argumentação como um meio de entender as identidades, as culturas e as
diversidades europeias”. A este projecto, que se iniciou em Maio passado e tem
uma duração de três anos, foi dado o nome de Diálogo e Argumentação para a Aprendizagem da
Literacia Cultural nas Escolas (DIALLS na sigla em inglês) - http://dialls2020.eu/
É um dos projectos
vencedores do programa de investigação e inovação da União Europeia Horizonte
2020, tendo-lhe sido garantido um financiamento de 4,4 milhões de euros. A
Portugal, que é um dos nove países participantes, estão atribuídos 480 mil
euros. Por ser um dos países envolvidos, os investigadores que lideram este
projecto passaram a pente fino os documentos oficiais que norteiam a educação,
da Lei de Bases do Sistema Educativo à nova Estratégia Nacional de Educação
para a Cidadania, que começou a ser aplicada em todas as escolas neste ano lectivo.
Primeira conclusão: em
nenhum dos documentos analisados existe qualquer menção à capacidade de
empatia. O mesmo acontece com o termo multiculturalismo. E o conceito de
tolerância, que em conjunto com a empatia e a inclusão é outro dos pilares do
novo projecto, aparece apenas duas vezes.
Em respostas ao PÚBLICO, o Ministério da
Educação (ME) reconhece que se “justifica a inclusão destes domínios nos
instrumentos curriculares porque existe a convicção, suportada por evidência,
de que esta integração tem um impacto positivo no sucesso escolar”. Quanto à
ausência ou à sub-representação de alguns destes conceitos nas orientações
oficiais para as escolas e para os alunos, o ME desvaloriza. Refere que “embora
os termos não sejam os mesmos, pode-se encontrar referência às questões que
suscitam” nos novos referenciais em vigor.
A este respeito, o ME especifica o
seguinte: “A interculturalidade é um tema obrigatório na área curricular de
cidadania e desenvolvimento, com referenciais próprios; o relacionamento interpessoal
é uma das áreas de competência previstas no Perfil dos Alunos à Saída da
Escolaridade Obrigatória, mobilizando atitudes de cooperação, solidariedade e
empatia; o programa de Apoio Tutorial Específico [destinado a alunos com
um historial de insucesso] tem como principal foco o desenvolvimento de
competências sociais e emocionais.”
Ao contrário do que acontece com a
empatia ou a tolerância, o conceito de cidadania bate recordes pela sua
presença: conta com 110 referências. Mas isto deve-se à entrada em vigor da
nova Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, já que nos outros
documentos analisados este conceito tem uma expressão menor, adianta a equipa
do DIALLS.
Esta equipa, constituída por investigadores
de nove universidades (oito europeias e uma israelita), seleccionou 11
conceitos que deveriam funcionar como uma espécie de tronco comum para garantir
o desenvolvimento de “competências interculturais” entre os alunos e assim
fomentar “a compreensão mútua”. Dos nove países analisados, só a Finlândia tem
todos estes conceitos nos seus normativos para a educação.
Dez escolas portuguesas entre os participantes
Esta análise está incluída
nas actividades calendarizadas para o primeiro ano do DIALLS, que se encontra
ainda em curso. Desta primeira fase faz também parte a escolha dos materiais
que serão utilizados, a partir do próximo ano lectivo, em 300 turmas dos nove
países participantes, divididas entre o pré-escolar (5-6 anos), o 3.º ano de
escolaridade (8-9 anos) e o 3.º ciclo (14-15 anos).
Em Portugal o projecto
será conduzido pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da
Universidade Nova de Lisboa, estando já garantida a participação de 20 turmas
(cerca de 500 alunos) de dez escolas da região de Lisboa, adianta a
investigadora da FCSH que coordena esta acção, Chrysi Rapanta.
Em 2019/2020, professores
destas dez escolas, a quem entretanto foi dada formação, irão garantir um
mínimo de 15 aulas “baseadas no diálogo e argumentação”, tendo sempre como
ponto de partida os programas em vigor. Ou seja, os temas a trabalhar são os
que estão previstos no currículo, mas com uma abordagem diferente que
privilegiará a aprendizagem pelos alunos da capacidade de argumentar, que seja
por falta de tempo ou de vontade não costuma ser acalentada nas escolas.
"Uma forma de ser"
Espera-se que estes ao
saberem expor as suas ideias e as razões que as fundamentam ganhem uma
“ferramenta essencial” para compreenderem melhor o mundo e pontos de vista que
são diferentes dos seus. Um projecto-piloto com o mesmo objectivo foi já
desenvolvido neste ano lectivo em três escolas de Lisboa com resultados
animadores, refere Chrysi Rapanta (ver texto nestas páginas).
Para que não subsistam
dúvidas sobre a natureza do projecto, a professora da Universidade de Cambridge
Fionna Maine, que é a coordenadora internacional do DIALLS, já pôs as cartas na
mesa: “Não se trata de encontrar respostas –
não estamos a tentar que as pessoas concordem entre si, nem sequer que procurem
chegar a um acordo. Este projecto é sobre ouvir e aprender. É
sobre uma forma de ser.”
É o que os alunos envolvidos irão
experimentar primeiro nas suas salas de aulas, depois com actividades entre
turmas de diferentes escolas e por fim com outras de diferentes países. Para a
realização destas actividades foram já escolhidos livros e pequenos
Filmes de animação que têm em comum o facto de não terem palavras. Razão?
“Não tendo palavras, sem necessidade de tradução, são um estimulante ideal para
o diálogo intercultural”, responde Fionna Maine.
Pelo caminho, os promotores do DIALLS esperam
que a capacidade de argumentar se torne uma competência valorizada pelo ensino.
E que o próprio conceito de literacia cultural, contido na designação do
projecto, sofra uma expansão. E que em vez de se referir apenas ao conhecimento
da cultura em que se está inserido (literatura, arte, referências históricas,
costumes, idiossincrasias, símbolos, etc.), passe também a incluir “as muitas interpretações
que existam” sobre tudo isto, resume Fionna Maine.