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segunda-feira, 20 de março de 2017

EXARP - chegou a hora de dar a volta à praxe



A exarp é um movimento que pretende valorizar as práticas positivas de integração de estudantes no ensino superior e afirmar as suas instituições como farol do conhecimento na sociedade e nos locais onde se inserem.
O desporto, a cultura e a ciência serão os principais motores deste movimento, através do destaque às iniciativas que hoje em dia já existem nos espaços de ensino superior e à estimulação para a criação de novas atividades. As iniciativas com o selo exarp arrancam em setembro de 2017, com o início do ano letivo 2017/18.


terça-feira, 7 de março de 2017

Entrevista a João Teixeira Lopes


Entrevista de Samuel Silva a João Teixeira Lopes, sociólogo da Universidade do Porto, um dos coordenadores do estudo encomendado pelo Ministério do Ensino Superior sobre a praxe, que saíu no Publico a 6.3.16, com o título: “O ambiente político e social em relação à praxe mudou” (o estudo: http://www.dges.gov.pt )

Os “caloiros” são hoje mais críticos das situações de abusos ou violência, conclui João Teixeira Lopes, sociólogo da Universidade do Porto,um dos coordenadores do estudo encomendado pelo Ministério do Ensino Superior sobre a praxe. A ausência de alternativas socializadoras para quem entra na universidade faz com que estas práticas sejam vistas como incontornáveis.
A praxe varia em função da região, da instituição e até do curso. O que há de unitário nestas práticas?
Há um corpo comum que se concretiza numa cadeia de rituais que têm como principal objectivo separar os que estão dentro dos que estão fora e conferir, àqueles que passam por esse processo iniciático, o estatuto de quem cumpriu a passagem. É esse o valor quase mágico do ritual: agregar, dividir, conferir um novo estatuto. Com base numa relação hierarquizada, de poder, e na observância de preceitos que são extremamente difusos e muitas vezes até contraditórios, numa tradição que na maior parte dos casos é uma tradição inventada, porque adaptada aos contextos.
Um inquérito internacional feito, no ano passado, pelas redes Universia e Trabalhando.com conclui que 73% dos portugueses reconhecem ter sido praxados no ensino superior, ao passo que nos restantes países esse número não ultrapassa os 25%. Não sendo a praxe um fenómeno exclusivamente português, é um fenómeno particularmente português. Porquê?
Por um lado, somos uma sociedade em que massificação do ensino superior foi tardia e é ainda, comparativamente com países do Centro e do Norte da Europa, incipiente. Por isso, todos os fenómenos relacionados com a frequência do ensino superior têm ainda uma certa marca de raridade ou de elitismo.
Depois, Portugal tem, em termos históricos, uma tradição de fenómenos deste género. Não quero dizer que a praxe, tal como hoje existe, tenha qualquer essência da tradição, porque ela se adapta às situações, mas há um arco histórico que vem da separação entre a universidade e o resto da sociedade. Há um terceiro aspecto: em Portugal não existem alternativas socializadoras na rotina dos estudantes para a integração. A praxe surge aos olhos dos estudantes como existindo desde sempre e para sempre. Isto faz de Portugal um caso singular.
É dito no relatório que alguns estudantes, dirigentes associativos e das próprias instituições recusaram colaborar no estudo [encomendado pelo Ministério do Ensino Superior sobre a praxe]. Isso surpreendeu-o?
O ambiente político e social em relação à praxe mudou. A praxe é hoje mais contestada, particularmente depois do “caso Meco”. Além do mais, há da parte do Governo actual um discurso assumidamente anti-praxe. Percebemos duas coisas: por um lado, há estudantes fortemente arreigados à praxe, que recusaram participar no estudo — o trabalho de campo ressentiu-se disso; por outro lado, a maior parte dos estudantes que entrevistámos diz que está na praxe voluntariamente, mas também diz que ela tem que se adaptar e respeitar os direitos humanos, não pode ser abusiva, nem humilhante. Há uma maior plasticidade que resulta de um ambiente global que começa a ser menos favorável à praxe tal como ela existia.


Relatório Final: A PRAXE COMO FENÓMENO SOCIAL


CONSULTAR o relatório: http://www.dges.gov.pt

"O estudo pedido pelo Governo Concluiu que as universidades legitimam as praxes.
Governo avisa que é preciso "dar a volta às praxes"
Estudo divulgado esta segunda-feira mostra que a maioria das universidades admite praxe nas suas instalações. 
Em Braga, na Universidade do Minho para a apresentação do estudo "A praxe como Fenómeno Social", Manuel Heitor garantiu trabalho no sentido de combater a humilhação como "tradição académica". O titular da pasta da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior mostrou ainda preocupação com o financiamento de bebidas alcoólicas a algumas actividades estudantis.
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"Temos que dar a volta às praxes, e garantir um processo positivo de integração dos estudantes", disse.
"O que o estudo mostra é que as praxes estão enraizadas e, por isso, temos que valorizar as práticas e as boas práticas de integração com mais cultura, com mais ciência por isso é verdadeiramente a tradição académica", explanou.
Manuel Heitor, que deixou como garantia que irá trabalhar "para que a humilhação não seja uma tradição académica", deixou ainda uma outra preocupação: "O que me preocupa é o financiamento da indústria de bebidas alcoólicas a algumas dessas praxes ", disse, lembrando que o financiamento público a associações académicas "está totalmente regulado".
De acordo com o estudo "A praxe como Fenómeno Social", divulgado esta segunda-feira, a maioria das associações académicas concorda com a existência de praxes e opõe-se a uma proibição da prática.
A mesma investigação aponta que o Governo deve garantir o acompanhamento jurídico e a isenção de custas judiciais de todos os estudantes que pretendam recorrer à justiça para denunciar situações passiveis de serem consideradas crime e que seja criada uma linha gratuita e permanente de apoio às vítimas.
Os investigadores consideram também que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior deve elaborar um relatório anual nacional, com base em dados recolhidos pelas instituições, para uma comparação de informação sobre a situação da praxe académica em Portugal.
Neste relatório nacional, o Ministério apontaria os casos mais graves, elencando novas sugestões de intervenção e temas emergentes.
O estudo foi promovido pela Direcção Geral do Ensino Superior e elaborado por uma equipa conjunta de investigadores do Centro de Investigação e Estudos Sociais do ISCTE-IUL (CIES), do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (ISUP) e do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), sob coordenação de João Teixeira Lopes (ISUP) e João Sebastião (CIES). "
Fonte Jornal Publico de 6.3.17

terça-feira, 1 de março de 2016

Resolução da Assembleia da República n.º 38/2016

Resolução da Assembleia da República n.º 38/2016 - Diário da República n.º 40/2016, Série I de 2016-02-26
Assembleia da República 
Recomenda ao Governo o reforço de medidas sobre a praxe académica.
ACEDER AQUI

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

CAMPANHA “Diz não às praxes agressivas e violentas”


Imagem da campanha “Diz não às praxes agressivas e violentas”,

Autora: Joana Abreu, uma aluna do 1.º ano do curso de Arquitectura da Universidade do Porto -  vencedora do concurso para a criação da nova imagem da campanha “Diz não às praxes agressivas e violentas”, que o Ministério da Educação e Ciência lançou há um ano, pela primeira vez.
A campanha foi lançada na sequência do debate gerado pela morte, um ano antes, de seis estudantes da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, no Meco. E incluía a disponibilização de um endereço electrónico — o praxesabusivas@mec.gov.pt,(destinado às denúncias) que se mantém activo.
Segundo o gabinete de imprensa do ministério, as 74 denúncias enviadas para aquele e-mail chegaram entre Setembro e Dezembro.
Fonte: Jornal Público

segunda-feira, 5 de maio de 2014

ENTREVISTA a Jorge Ramos do Ó: "As praxes"


Entrevista de Andreia Sanches a Jorge Ramos do Ó, com o título “É como se estivéssemos numa espécie de loucura consentida, a aprender o que há de pior para ser um cidadão”, que saiu no Publico de ontem

Os rituais dos alunos que tanto dão que falar são o espelho de algo muito maior, acredita o historiador Jorge Ramos do Ó, que não foi praxado por colegas quando era estudante. Mas foi “praxado por professores, a vida toda”. Como? “No sentido em que tive de ouvir coisas muito disparatadas e responder a perguntas muito imbecis. Para haver mentalidade praxista, não é preciso haver praxes.”
Jorge Ramos do Ó é professor no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e especialista em História da Educação e Análise do Discurso. Nesta entrevista, defende que o que está enraizado há séculos no sistema educativo é isto: “A ideia de que não existe uma simetria de inteligências. A ideia de que o saber se ouve, não se constrói. A ideia de que não se experimenta, decora-se. A ideia de que não se pensa, reproduz-se.” O sistema educativo é assim. A chamada praxe académica é assim. Os jovens acham que o que os espera quando forem adultos não é diferente. Se querem ser respeitados, terão de sobreviver ao jogo, acreditam.
O professor, autor de livros como A Universidade de Lisboa, da Revolução Liberal à Actualidade (Tinta da China) e O Ensino Liceal (Ministério da Educação), foi uma das três personalidades a quem pedimos para ler e analisar alguns dos muitos testemunhos que recebemos sobre praxe. Diz que se comoveu. “Estamos todos a operar na miséria relacional — as vítimas, os agressores, os que se sentiram excluídos, os que ficam traumatizados, os que se sentem muito felizes com a praxe...”
Os rituais de recepção aos caloiros estão descritos há séculos como tendo uma função disciplinadora positiva [as trupes em Coimbra tinham supostamente a missão de garantir que os estudantes mais novos não saíam à rua à noite e ficavam em casa a estudar]. Também vê estes rituais dessa forma?
 São rituais de disciplina, mas, do meu ponto de vista, são mais rituais que mostram o modo como os jovens adultos, os estudantes universitários mais velhos, procuram mimetizar uma ideia que têm da universidade. E, ao mesmo tempo, uma ideia que eles têm do próprio sistema educativo. Os alunos são aquelas pessoas que estão a ouvir o professor. Podem ouvir professores que dizem disparates, mas estão ali a ouvir. São vistos como alguém que não conhece e que, portanto, alguém que precisa de se dispor a ser submetido por uma coisa qualquer que é o saber, ou a ordem, ou a disciplina.

A minha posição aqui não é a de ser a favor ou contra [a praxe]. É a de constatar esta dinâmica que procura reproduzir a instituição escolar no que ela tem de impossibilitador de uma vida comunitária baseada no acolhimento, na ideia de que duas inteligências se encontram, pensam e experimentam juntas — que é muito a ideia de instituição universitária nos países de tradição alemã ou anglo-saxónica, onde estas praxes têm muito menos significado do que nossa cultura.
E em Portugal?
Nós vimos de uma tradição neurótica, se quiser, que consiste em termos um professor que pode dizer tudo, incluindo os maiores disparates, e haverá sempre alguém que imagina que se se adequar a esses disparates, e sobrevivendo a eles, pode um dia ser um adulto respeitado.

Teve oportunidade de ler excertos de algumas dezenas de textos que recebemos sobre a praxe nos últimos dias...
A primeira coisa que me impressionou, mais do que os relatos, que demonstram formas de humilhação, mais do que aquelas vozes que dizem “tenho muitas saudades [da praxe]”, “gostei muito”, “foi onde fiz os meus melhores amigos”, é que há aqui depoimentos que mostram que as pessoas percebem que para se ser adulto “tem de se fazer sacrifícios”, “que isto é uma preparação para as hierarquias, para a responsabilidade, para o trabalho em equipa”. Não há nada que estes jovens adultos, os estudantes, duxes e etc. façam com os mais novos que não tenham visto — e sentido na pele. E é como se estivéssemos aqui todos numa espécie de loucura consentida a aprender o que há de pior para vir a ser um cidadão. E que é imaginar que tem de se obedecer à autoridade mais ilegítima, mais brutal, mais humilhante.

Mas a hierarquia marcada, a ideia do aluno passivo, é algo que sempre esteve presente no sistema educativo...
Do ponto de vista histórico, tem razão quando diz que sempre existiu. A questão é que agora se absolutizou, atinge a vida juvenil no seu conjunto. Enquanto há 150 anos estávamos a falar de uma parcela da juventude — na universidade estavam pessoas que normalmente eram da classe média —, hoje toda a gente está na universidade. E é tudo mais visível. Para além de que a tolerância para com a vida juvenil também é menor — os alunos aparecem nos jornais, nos media, quase só na medida em que produzem comportamentos idiotas, violentos... não há esforço para mostrar uma imagem menos negativa. Estes fenómenos têm uma existência hoje, uma circulação, que não tinham anos atrás. Toda a gente sabia o que era as praxes, mas, como aquilo estava relativamente circunscrito e fazia parte de uma elite, era visto pelos adultos como alguma coisa que eles próprios já tinham protagonizado, sendo eles parte dessa mesma elite, que assim se via reproduzida. Hoje é mais fácil distanciarem-se disto. E sobretudo, nós, universitários – imagino que alguns, talvez mesmo muitos –, reagimos às praxes como se elas não tivessem nada que ver connosco, como se elas fossem uma coisa da barbárie cultural, própria daqueles que são os recém-chegados, que vemos como estando em ascensão social e nada têm que ver com o nosso mundo e as nossas referências culturais e existenciais. Nós, que estamos ali no mesmo edifício, alguns de nós que abrimos as salas para os alunos mais velhos fazerem as praxes aos alunos mais novos, imaginamos que o que eles façam de horror não tem nada que ver com o que nós fazemos.

É um bocadinho esquizofrénico, isso de abrir as portas das salas se é uma barbaridade…
Quem faz as praxes — mesmo os nomes: o doutor, o engenheiro, a besta, toda essa nomenclatura — quem produz as praxes está, de alguma maneira, a reproduzir designações que são as do próprio mundo universitário.

O que é que na forma de relacionamento numa universidade pode haver de semelhante com a praxe?
A ideia de que alguém tem tudo a ensinar e alguém tem tudo a aprender. A ideia de que não existe uma simetria de inteligências. A ideia de que o saber se ouve, não se constrói. A ideia de que não se experimenta, decora-se. A ideia que não se pensa, reproduz-se. Isto está enraizado no nosso sistema de ensino há séculos. E na actualidade. É esta encenação que os jovens fazem nas praxes. E que é a expressão da forma de poder mais violenta e mais omnipotente, que é você dizer assim: “Eu vou produzir um escravo feliz, vou escravizar, vou humilhar, vou pôr em causa valores da intimidade mas no fim, se a pessoa sobrevive àquilo, ela vai considerar-se uma vencedora.” É como se reduzisse a vida comunitária a esta ideia de que você pode ser escravo e senhor, não pode ser outra coisa. E esta é a grande fantasia do poder na sociedade moderna.

Qual?
Produzir escravos felizes, produzir o máximo de disciplina consentida, o máximo de obediência, responder a ordens contraditórias — “Fala! Está calado! [in relato de uma das alunas que enviaram o seu testemunho ao PÚBLICO]” O que há de mais repugnante é isto estar dentro da nossa vida. Não é um cogumelo que nasceu ali no meio do nada.

Para mim, o pior é que não há alternativa: a não ser a miséria de querer reproduzir os partidos políticos, ou de pertencer à Maçonaria, não há, do ponto de vista daquilo que é a missão da universidade — que é produzir conhecimento, a fantasia do conhecimento, a fantasia da ciência, de que tudo pode ser pensado —, não há formas de vida comunitária alternativas às da praxe. Se quer pensar, em grupo, novas formas de conhecimento e de vida, associando-os, fazendo com que se alimentem um à outra, o que é que você tem? Nada. Era bom que olhássemos para isto das praxes como uma exigência a nós próprios para inventarmos formas totalmente novas de estarmos juntos.
A tragédia é imaginarmos que podemos estar dentro de uma instituição que foi criada para ser autónoma de todos os poderes — e desde a Idade Média, desde o seu aparecimento, se construiu como espaço de autonomia, para pensar sobre tudo e pôr tudo em causa, imaginar que não há nenhuma pergunta que não possa ser feita — e, depois, produzimos uma vida lá dentro que reduz esse princípio a algo que é o contrário, que é: “Você não pensa, você é burro, é idiota.” Este praxante encarna ele mesmo essa figura, é alguém que teve muitas matrículas, que não conseguiu ter sucesso na parte académica mas por isso mesmo pode administrar, como se conhecesse, dentro de si próprio, e de uma ponta à outra, a linguagem do poder... Submete como foi submetido.
As pessoas que nos escreveram falam muito sobre a divergência de percepções sobre o que num determinado ritual é ou não violento. Para o reitor, uma praxe violenta é uma coisa; para o aluno, é outra; para um professor A ou B, é outra; para o secretário de Estado, é outra...
Se para as pessoas é uma questão de grau — alguém ter uma orelhas de burro não é violento, mas se o despirem com as orelhas de burro já é violento —, para mim, o princípio é sempre o mesmo princípio e é o princípio que eu condeno: a ideia de que alguém tem tudo a dizer e alguém tem tudo a aprender. Eu acho que tudo o que sejam formas de relação que não suponham um bom encontro, uma afectação positiva, marcada pelo desejo de pensar sobre o amanhã do conhecimento e sobretudo que não inscrevam o desejo do saber no centro da vida universitária, são no mínimo inúteis, para não dizer mesmo desprezíveis.

Compreendo que alguém tenha prazer em humilhar, em ter alguém à mercê e de a submeter e depois de a libertar — é uma coisa um bocado erótica. Agora, o que eu digo é que, provavelmente, essa prática é mais tolerada na instituição escolar do que em qualquer outra.
Como assim?
Num hospital, numa prisão, estes comportamentos seriam, provavelmente, mais facilmente denunciados e se não são denunciados — e é preciso que morram pessoas para se debater isto — é porque, provavelmente, uma vez mais, as universidades não querem constatar que os mais jovens estão a copiar comportamentos dos adultos. Porque aí a conversa não é sobre os mais jovens, é sobre nós todos. Por que é que nós somos tão permeáveis à vertigem totalitária?

Desta conversa pode ficar a ideia de que não compreendo estas pessoas que entram neste jogo. Eu queria dizer que compreendo. Não tenho nenhuma espécie de identificação com as praxes, mas compreendo e vejo isto como uma caricatura da vida adulta. E para mim, o trágico, é que os adultos apresentem deles uma imagem que só pode ser reproduzida nesta relação pobre. É como se estivessem num devir adulto, a tentar sistematizar, a tentar representar de forma metafórica, simbólica, aquilo que é o movimento para ser adulto.

Há algum depoimento que o tenha tocado mais?
“Acordamos para a vida que nos espera lá fora”, “isto faz-nos crescer enquanto cidadãos”, “não tem um adulto que fazer sacrifícios?”, “estão a preparar-nos para trabalhar em equipa” — é o que dizem estas pessoas. Também dizem que representaram “o papel de bestas ignorantes que não sabem as respostas”, que lhes raparam o cabelo, que estiveram em “posições absurdas”, que há “um tribunal da praxe”... Isto é um facto social total, ocorre em todas as universidades, mais numas, menos noutras, mas é um facto da vida universitária contemporânea que as pessoas que chegam ao vértice do sistema de ensino, seja enquanto alunos universitários, seja enquanto professores, vivem nas suas instituições práticas de aniquilamento, de integração que supõem esta obediência consentida. E se isto acontece é porque se sabe que há um ganho qualquer. Que se está a jogar uma fantasia de poder que é o poder hierárquico.

Onde é que se licenciou?
Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas [da Universidade Nova de Lisboa], na década de 80. Havia praxes, poucas. Participei numa coisa dessas, como praxante: um dia demos uma aula com uma bibliografia em alemão ou chinês...

Era um falso professor.
Éramos falsos professores. Senti-me ridículo ao fim de meia hora. E nunca mais fiz nada.

E praxado, foi?
Não pelos meus colegas, mas fui muito praxado por professores, a vida toda. No sentido em que tive de ouvir coisas muito disparatadas e responder a perguntas muito imbecis. Para haver mentalidade praxista, não é preciso haver praxes.

Devo dizer que li isto [os testemunhos dos leitores do PÚBLICO] com uma certa emoção, se quer que lhe diga. Se eu tivesse que me identificar aqui com alguém, e se eu tivesse de ser solidário, seria com as pessoas que foram vítimas mas também com as pessoas que dizem que isto foi como voltar a ser criança... para mim, é tudo a mesma coisa.

São todos vítimas?
Estamos todos a operar na miséria relacional — as vítimas, os agressores, os que se sentiram excluídos, os que ficam traumatizados, os que se sentem muito felizes com a praxe...



FIM
MUITO BEM DITO!

Vídeo "temos o direito de ser humilhados"  É desta miséria humana que se falou:






quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Praxes ou bullying perigoso?

Artigo do psiquiatra PEDRO AFONSO no Publico de hoje:
Defendo que as praxes devem obedecer a um código de conduta. 
As mortes de estudantes da Lusófona ocorridas na praia do Meco e o julgamento de ex-alunos do Colégio Militar foram notícias recentes associadas a praxes académicas e que merecem alguma reflexão.
Começo por referir que fui estudante de Medicina em Coimbra de 1987-1993, e fui praxado. Um dia por volta da meia-noite quando regressava a casa, acabei por ser apanhado por um trupe de alunos mais velhos. Foi aplicado o respectivo código da praxe (em Coimbra havia um código da praxe com regras claras) e, atendendo às altas horas da noite, impróprias para um caloiro, fui punido com umas tesouradas no cabelo. No dia seguinte, embaraçado pelo estado ridículo em que ficara o meu cabelo, dirigi-me a um barbeiro que havia na Praça da República, a quem chamávamos o “Pepe rápido”; era assim conhecido, devido à rapidez com que cortava o cabelo. Sentei-me e, quando ia dar uma explicação para a minha triste figura, o barbeiro murmurou, num tom complacente: "Não se preocupe, hoje já é o sétimo!..."
A minha experiência de praxe foi globalmente positiva. Em Coimbra havia uma tradição de praxe académica, com regras, que servia para integrar os caloiros, facilitando que os alunos de diferentes cursos se conhecessem, e deste modo fossem criadas novas amizades. Mas confesso que, por aquilo que tenho visto e lido, muitas das praxes atuais pouco ou nada têm a ver com esse espírito.
Os rituais de praxe são realizados habitualmente em grupo, num ambiente de grande excitação e exaltação colectiva. Neste contexto, os mecanismos dos limites sociais estão enfraquecidos, criando-se condições para o aparecimento de violência física ou psicológica, expressas através de humilhações gratuitas. O perigo reside no risco de alguns veteranos apresentarem mentes psiquicamente perturbadas, encontrando na praxe o ambiente propício para expressarem as suas frustrações pessoais e agressividade, frequentemente com contornos de perversão. Assim, a praxe passa a ser bullying. Muitas das praxes a que assistimos podem ser considerados comportamentos de bullying, já que configuram atos intencionais de agressão física ou psicológica que envolvem uma disparidade de poder entre os agressores e as suas vítimas.
Como estas praxes ocorrem em idades mais avançadas, comparativamente, por exemplo, com a adolescência, a violência dos rituais torna-se não apenas mais sofisticada como também mais perigosa. Se juntarmos a este fenómeno o fato dos rituais da praxe serem muitas vezes realizados sob o efeito desinibidor do álcool (e por vezes drogas), a situação pode adquirir contornos de grande gravidade.
Basta, portanto, que haja um individuo perturbado psiquicamente a liderar um grupo de praxe para que os comportamentos possam adquirir contornos de grande risco e violência. Porém, as perturbações mentais não explicam tudo. Num artigo recente (2013) da revista científica International Journal of Adolescent Medicine and Health, os autores concluem que a evidência científica não suporta a ideia de que a maioria das ações cruéis são intrinsecamente patológicas, no sentido de serem motivadas por perturbações mentais. Por esta razão, apenas as regras morais e as ações legais (e não as intervenções psiquiátricas) poderão dissuadir o ser humano desta forma de crueldade.
Defendo, portanto, que as praxes – como grande parte dos comportamentos sociais – devem obedecer a um código de conduta, devidamente regulamentado, no qual deve ficar claro a proibição de rituais de humilhação gratuita, bem como de condutas violentas que possam colocar em perigo a integridade física dos caloiros ou susceptíveis de provocarem qualquer dano psicológico. Além disso, deve ficar explícito que a praxe deve ser voluntária, sendo que o seu objectivo principal é facilitar a integração dos novos alunos. As regras da praxe poderão ser elaboradas entre os alunos e as respetivas universidades, de forma a poderem ser punidos aqueles que desrespeitarem os princípios da mesma.
A praxe deve ser discutida às claras e regulamentada entre as partes, de modo a evitarem-se situações de bullying que são inaceitáveis em sociedade e que devem ser repudiadas por todos nós.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ENTREVISTA a Carlos Amaral Dias: "As praxes"As Praxes


As praxes dos estudantes são o tema em análise pelo psicanalista Carlos Amaral Dias no programa Janela Discreta da RTP Play de 20.set.12, AQUI