Taxa de desemprego jovem
Artigo de Raquel Martins no Jornal Publico de ontem, com o título “Desemprego
jovem cresce apesar da recuperação do mercado de trabalho”, com base nos dados estatísticos do INE (https://www.ine.pt/ ) do documento: A taxa de desemprego de outubro foi de 8,4% - Novembro de 2017 de novembro de 2017 publicada a 8 de janeiro de 2018.
Formação desadequada às
necessidades das empresas, retoma do emprego em sectores pouco qualificados ou
as alterações às regras dos estágios ajudam a explicar que um quarto dos jovens
portugueses continue desempregado.
Portugal foi o país da União Europeia
onde o desemprego jovem mais cresceu entre Setembro e Outubro do ano passado
(de 24,6% para 25,6%), em contraciclo com a tendência de descida registada na
maioria dos países. Ainda é cedo para dizer se esta tendência veio para ficar
ou se estamos perante uma subida pontual — algo que o Instituto Nacional de
Estatística (INE) ajudará a explicar com os dados mensais que serão divulgados
nesta segunda-feira. Há, porém, um conjunto de factores que podem justificar
que um terço dos jovens continue desempregado: a desadequação entre a formação
e as necessidades das empresas, a retoma do emprego em sectores que não
valorizam as qualificações mais elevadas ou a reformulação dos estágios
apoiados pelo Estado.
Já no terceiro trimestre de 2017,
contrastando com a redução da taxa de desemprego global e com a melhoria
generalizada do mercado de trabalho, se tinha verificado um agravamento do
desemprego na população jovem em comparação com o trimestre anterior,
interrompendo a descida em cadeia verificada desde o arranque no ano.
O Governo não vê na evolução mais
recente do desemprego jovem uma tendência consolidada, por considerar que na comparação
homóloga este indicador continua a recuar. “Tenho alguma dificuldade em
acompanhar a leitura de que o desemprego jovem esteja a evoluir em contraciclo
com a evolução global do mercado de emprego”, diz ao PÚBLICO o secretário de
Estado do Emprego, Miguel Cabrita. “Se olharmos para os últimos dois anos
tínhamos uma taxa de desemprego jovem que estava acima dos 30% e no terceiro
trimestre de 2017 tínhamos 24,2%, em linha com a evolução da taxa de desemprego
global. Houve nalguns meses uma evolução em cadeia positiva, mas é normal que
aconteça”, justifica.
Além disso, nota, com a redução do
número de inactivos desencorajados, muitas pessoas poderão ter passado para o
emprego e outras terão voltado a procurar trabalho, passando à categoria de
desempregados no inquérito do INE, algo que poderá influenciar as estatísticas.
Miguel Cabrita não nega, porém, que a taxa de desemprego jovem “ainda é
elevada” e “uma preocupação”.
Já o economista João Cerejeira atribui
alguma relevância à subida recente em contraciclo com a melhoria generalizada
do mercado de trabalho. “Continuamos a ter uma taxa muito elevada de desemprego
jovem e inverteu-se a tendência de descida deste agregado. Nesse sentido é
preocupante”, alerta.
E adianta algumas hipóteses para o que
está a acontecer: "Há que destrinçar se esta evolução tem mais a ver com a
estrutura da economia, ou se decorre de outros factores como a alteração das
regras dos estágios profissionais em meados de 2017".
Formação desadequada
A adequação entre a formação que é dada
aos jovens e as necessidades das empresas é, para João Cerejeira, outro aspecto
relevante que pode explicar parte da “não descida do desemprego jovem”.
Esse problema é, segundo o economista,
muito visível na indústria transformadora que, a par da restauração e do
turismo, está entre os sectores que mais têm criado emprego. “Só não está a
criar mais, porque não tem encontrado na oferta de trabalho jovem o perfil
adequado para as funções de que precisa”, nota.
Vários factores contribuem para esta
dificuldade – que não é exclusiva da indústria. Por um lado, frisa o
investigador da Universidade do Minho, “é bastante difícil fazer a adequação
entre a formação profissional e as necessidades das empresas porque há
problemas de escala”, obrigando a abrir cursos para 20 cozinheiros, por
exemplo, quando as empresas de determinada região só necessitariam de dez, mas
depois precisam ainda de cinco torneiros mecânicos e de cinco electricistas.
Por outro lado, a formação
profissional feita nas escolas de ensino regular não dá resposta à procura das
empresas que está a crescer mais.
Finalmente, a disponibilidade de
mão-de-obra para determinadas actividades tem a ver com a própria escolha dos
jovens. E, actualmente, “olhar para o trabalho na indústria é um pouco como as gerações
anteriores olhavam para o trabalho na agricultura”, destaca o investigador.
O secretário de Estado do Emprego
alerta que no sector industrial, “mais dependente de uma geração de
trabalhadores formados nas antigas escolas industriais” é preciso garantir que
a renovação geracional não leve a um esvaziamento de competências.
Enquanto noutros sectores, em particular quando se trata de empresas com
práticas de trabalho inovadoras, há efectiva escassez.
Retoma pouco qualificada
José Reis, economista e investigador
do Centro de Estudos Sociais, concorda que há alguma desadequação, mas alerta
que é preciso olhar para outros factores, em particular a qualidade do emprego
disponível e a crescente terciarização da economia.
“Ainda esta semana ouvimos a restauração
e o alojamento queixar-se de que faltam 40 mil trabalhadores. A pergunta
seguinte devia ser: que salários e que emprego se está a oferecer e,
infelizmente, sabemos a resposta sem grande margem de erro. São sectores que
oferecem salários baixos e precariedade”,
destaca.
É certo que o mercado de trabalho tem
registado melhorias assinaláveis, “mas temos um problema persistente
relacionado com o sistema de emprego pouco qualificado e precário”. E essa questão
está, para o economista da Universidade de Coimbra, relacionada com os sectores
que mais têm criado emprego e “que não são os mais tranquilizadores” do ponto
das qualificações. E isso, reforça, “tem um impacto específico nos jovens”.
O facto de o desemprego jovem
continuar elevado não significa que os mais novos estejam a ficar à margem da
recuperação do emprego. Pelo contrário, tanto em termos homólogos como em
cadeia, o emprego da população dos 15 aos 24 anos aumentou. Só do segundo para
o terceiro trimestre registou-se uma subida de 16 mil novos postos de trabalho.
A questão a que se refere José Reis prende-se com o tipo de emprego que está a
ser criado e que, de acordo com os registos nos fundos de compensação do
trabalho (uma maneira fiável de avaliar o novo emprego) apontam para trabalhos
precários.
Estágios e confiança na escola
O economista João Cerejeira também não
descarta que as mudanças no programa de estágios apoiados pelo Estado, em vigor
desde meados de 2017, tornaram esta medida mais selectiva e reduziram o número
de abrangidos.
“A diminuição dos estágios concedidos
fez com que o preço relativo de contratar um jovem tenha aumentado mais do que
o dos outros grupos. É natural que tenha havido uma recomposição no perfil das
contratações”, destaca.
O secretário de Estado do Emprego
descarta essa hipótese: “Terminámos 2016 com cerca de 46 mil estágios aprovados
e vamos terminar 2017 com 43 mil estágios”. Este são os dados mais recentes que
diferem de forma significativa dos disponíveis no site do Instituto do Emprego
e Formação Profissional que dão conta de uma redução de 7600 estágios entre
Outubro de 2016 e de 2017.
Além dos apoios públicos, há outra
questão que João Cerejeira destaca como preocupante, que é o aumento do
abandono escolar. Mas por que razão os jovens não concluem o secundário? Podia
haver uma razão “positiva”, responde o economista, “como o mercado de trabalho
está a recuperar e como há mais oportunidades de emprego as pessoas deixam de
estudar e vão trabalhar”. Isso não parecer estar a acontecer e “há claramente
uma dificuldade de o sistema de ensino mostrar que tem valor”.