Artigo de Samuel Silva no Jornal Publico de hoje:
"Desde o pré-escolar
que os alunos contactam com esta área e a das Tecnologias e chegam ao
secundário a fazer investigação em parceria com universidades. Trabalho foi
premiado por rede europeia.
A boa notícia chegou esta segunda-feira
no primeiro dia de aulas: o agrupamento de escolas de Alcanena, no distrito de
Santarém, é o melhor da Europa a ensinar Ciências e Tecnologias. Os alunos
tinham uma reunião marcada com o coordenador do projecto que tem promovido o
ensino nestas áreas naquela escola, mas o planeamento dos próximos meses de
trabalho ficou por momentos afectado pelo entusiasmo da novidade.
É a primeira vez que esta distinção é
atribuída. O projecto STEM SCHOOL LABEL (selo escolas STEM),
financiado pela União Europeia, criou uma rede de estabelecimentos de ensino
que apostam no ensino das Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática
(áreas científicas conhecidas pelo acrónimo em inglês STEM). Entre as mais
de 1000 escolas envolvidas, a de Alcanena foi a melhor classificada. É a única
a receber a classificação máxima atribuída neste primeiro ano de avaliação,
o STEM School Proficient Label (selo de
escola STEM Proficiente). Há outras cinco escolas nacionais a receber
a segunda classificação mais elevada, competente.
Este agrupamento “já tinha uma cultura
enraizada” no ensino da Ciência e das Tecnologias, explica o coordenador do
departamento de Matemática e Ciências Experimentais, José Fradique. Há cerca de
uma década que são promovidos projectos para colocar os alunos em contacto com
a investigação científica. Nos últimos dois anos, esse esforço “ganhou novo
fôlego” com a introdução da autonomia e flexibilidade curricular nas escolas.
Antes, a Ciência e a Tecnologia eram
desenvolvidas “paralelamente às aulas”, conta José Fradique, em iniciativas
como o Clube da Ciência e o Clube da Programação. Agora, com a possibilidade
aberta pela nova legislação de até um quarto do tempo lectivo poder ser
gerido pelas próprias escolas, os projectos passaram a integrar os currículos e
a ser feitos em períodos de aulas, em particular nas disciplinas de Biologia e
Geologia, Físico-Química e Matemática.
Por exemplo, no ensino secundário, os
estudantes desenvolvem trabalhos de investigação científica para tentar “dar
resposta a problemas locais”, em articulação com as matérias do currículo. Numa
região onde a indústria dos couros tem uma grande tradição, as turmas têm
trabalhado a questão dos desperdícios industriais, provando, por exemplo, ser
viável a sua reutilização como fertilizante ou para obter
um biocombustível.
"Os protagonistas"
Aqui são os alunos “os
protagonistas”, valoriza a directora do agrupamento, Ana Cláudia Cohen. “São
eles que escolhem os temas, que fazem os contactos, que trabalham com
professores universitários e que vão a congressos apresentar os seus artigos”,
conta. A escola tem feito parcerias com instituições de ensino superior como as
universidades Nova de Lisboa ou de Coimbra e os politécnicos de Leiria e
Santarém para que os alunos tenham acesso a equipamento tecnológico para os
seus projectos ou a acompanhamento por parte investigadores dessas
instituições.
Guilherme Félix, que acaba
de entrar no 12.º ano, participou no ano passado numa conferência sobre
metodologias de ensino promovida pela Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico (OCDE), em França, por exemplo. Frequenta o
agrupamento desde o pré-escolar e sempre notou a “grande ênfase em projectos
científicos e no ensino prático” colocado pelos professores. Quando chegou ao
ensino secundário, “isso acentuou-se”. A tal ponto que Guilherme, que não
planeava prosseguir os estudos para o superior, já se vê a candidatar-se a um
curso de Engenharia Química no final deste ano lectivo.
Mas
não são só os alunos do ensino secundário a trabalhar a Ciência e a Tecnologia nas
escolas de Alcanena. O agrupamento tem estudantes desde o pré-escolar ao fim do
ensino secundário (totaliza cerca de 1600 inscritos). Os alunos de cinco anos
têm actividades no domínio da Física, trabalhando questões como o movimento e a
velocidade dos corpos, em contexto de aula, fruto de uma parceria com o Centro
Ciência Viva do Alviela.
Além
de ser a melhor escola da Europa a ensinar Ciência e Tecnologia, o agrupamento
de Alcanena é um de três nacionais (de um total de 20 na Europa) que será
também embaixador do projecto. A European Schoolnet, a rede que gere
este projecto, vai trabalhar com estas escolas durante o próximo ano lectivo
para que possam partilhar as suas boas práticas com as restantes participantes,
de modo a ajudar estas últimas a melhorar as suas classificações. As outras representantes
portuguesas são as escolas secundárias do Entroncamento e de Loulé.
"Exemplo internacional"
“É fantástico, e tão relevante, que das
mais de 1000 escolas que se candidataram, de tantos países europeus, apenas
Alcanena alcançou este nível de proficiência, tornando-se assim um exemplo
internacional”, valoriza ao PÚBLICO o ministro da Educação, Tiago Brandão
Rodrigues. A rede tem escolas de 34 países, incluindo países parceiros como
Israel ou a Turquia.
Das mais de 1000 escolas, 380
participaram na primeira fase de avaliação, que decorreu neste Verão. As
escolas foram colocadas em três patamares, em função do seu comportamento nos
21 indicadores que são levados em consideração. Além da escola de Alcanena, a
única a ter o selo de escola “Proficiente”, outras 300 escolas, de 15 países
receberam o selo de escola “competente” – as restantes não receberam qualquer
selo. Destas, cinco são portuguesas: agrupamento de escolas Cidade do
Entroncamento, Escola Secundária de Loulé, agrupamento de escolas de Odemira,
Escola Profissional de Oliveira do Hospital, Tábua e Arganil e Escola
Profissional de Almada."